terça-feira, setembro 16, 2003

tenho um cérebro que não foi feito para a ciência, mas que pode ser incrivelmente excitado por ela. ontem me pus a ler uma scientific american e dio, quem disse que eu conseguia parar. ou dormir. quatro da manhã e minha mente estava febril com a possibilidade do universo ser um holograma, com os gases que faziam a pitonisa de delfos profetizar, com a origem do homem ser africana ou não, com o pêndulo de foucault...

leitura contra-indicada para mentes excessivamente imaginativas.

segunda-feira, setembro 15, 2003

a segunda feira é por natureza, um dia de recomeços. e de se coletar os cacos do final de semana. resumos. então, com aquela voz da sony - nos capítulos anteriores de...

vimos nei lisboa ao vivo, viu jorge, sem querer causar nada parecido com inveja. o pequeno gnomo usava aquele gorrinho verde e camisa vermelha. quase o uniforme dos duendes. cantou muito e bem, como sempre. meu entusiasmo, somehow, falhou em aparecer, mas não se podia apontar uma falha ali. coisas da familiaridade excessiva, talvez. fiquei bem mais entusiasmado com a parrillada que veio depois. as alegrias da carne, parece, não morrem.

vimos (onde escrevo nós, leia-se eu e mari) o terceiro Hannibal, que vem a ser o primeiro refilmado e achei tristíssimo. curioso, uh. esperava me agarrar na cadeira, mas não sei se pela presença de ralph fiennes, o filme me pareceu muito mais triste que assustador. uno siente uma dó do assassino... ou eu estou ficando insuportavelmente soft, mas juro que fiquei com um certo travo na garganta.

após nossos intervalos comerciais, voltamos com essa retrospectiva. stay tuned.

segunda-feira, setembro 08, 2003

eu não mereço, mas jorge escreveu um texto lindo sobre mim. fiquei tocado, de verdade. ficaria embaraçado de fazer o relato de volta, mas um dia faço. porque ele sim merece.
ah, e como poderia esquecer de comentar? Vi punch drunk love esse final de semana, embriagado de amor na versão brasileira e é o filme mais bizarro, lindo, assustador, estupefaciente.... podia continuar com adjetivos sem parar. dudu pergunta o que viram em adam sandler e eu acho que ele se saiu lindamente nesse filme. você quer abraçar o fulano, confortá-lo como emily watson faz. ela, com aquela grande cara inglesa redonda tem um significado tão tocante - você entende sem que adam explique - quando ele a abraça, ele sabe que chegou em casa. ela tem aquele abraço que significa um mundo, que significa que aquele ser humano achou um lar naqueles braços. com toda a sabedoria das mulheres que entendem que homens são crianças rodando pelo mundo.

confesso que saí trôpego do cinema. de fato, tive que sentar nos degraus de uma loja vazia no domingo e fumar um cigarro meio perplexo, sem saber pra onde ir. mas pode ser uma coisa minha.
pequenos crimes

então livros de novo. ainda que eles não sejam toda a vida e alguns poderiam dizer que eles são o contrário da vida. mas eles são um pedacinho dela. ou uma chance de viver outras vidas. o final de semana me arrastou a lugares barulhentos e infernais, mas no domingo desliguei o telefone e reli as estórias de tom ripley, reunidas num volume. a expressão prazer culpado se encaixa tão bem aqui, porque tom é tão amoral que uno se siente cúmplice dele ouvindo suas estórias e não consegue deixar de imaginar pequenos crimes. parece tão fácil para ele. ele ultrapassa delicadamente os limites da lei. não mais do que o necessário, não sem um certo senso de estilo, entre um bom vinho e uma tarde agradável em sua maison na frança. às vezes simplesmente para quebrar o tédio. e a realidade parece alterada. você sai dali sorrindo e com idéias pérfidas na cabeça.

quinta-feira, setembro 04, 2003

camus e a américa

as alegrias do sebo ideal. adão é o dono. lá se chega, se pode fumar, o dono conhece tudo e é difícil não encontrar dois diletantes discutindo o sentido da existência. ele tinha recebido três mil volumes, que misteriosamente acham seu lugar nas mesmas prateleiras cheias. saí de lá com dois camus, um autobiográfico e o diário de viagens dele. na américa, ele diz que sente o coração tranquilo e seco, como quando frente a um espetáculo que não o emociona. um americano diz a ele - esse é um país onde os relacionamentos são fáceis, porque são rasos. é um país que não conhece o amor.

segunda-feira, setembro 01, 2003

o final de semana foi luminoso. passado todo em torno da mesa de desenho. não há satisfação maior do que ver páginas prontas ao final de um dia de trabalho. depois, relendo patricia highsmith, um personagem citava um pintor que dizia - que não há nada tão depressivo para o artist do que o self, para o qual ele se via retornado depois de um período de trabalho, ou em férias, que nunca deviam ser tiradas . o negrito é por minha conta. sei do que ele fala. sempre me senti profundamente desorientado em minhas tentativas de estar em férias. simplesmente não fazia nenhum sentido pra mim. como já disse, o mundo faz sentido quando se está tentando criar um novo.

sexta-feira, agosto 29, 2003

as cidades

melissa largou a cidade que amava e que a enlouquecia. law vive em uma cidade cyber que sonhou. calvino fala das cidades invisíveis, que se confundem com as de borges. cortazar falava de uma cidade que vários amigos compartilhavam em sonhos. eu idealizo a minha cidade dos sonhos ao mesmo tempo caminhando por ela. eu digo que cada um tem a paris que merece. loulou diz que merece a verdadeira paris e não duvido. james provoca os cubanos em miami, marcos está feliz em floripa, os amigos estão espalhados pelo mundo e cada um toma café na sua cidade. uno se pone loco pensando nessas coisas.

quarta-feira, agosto 27, 2003

os americanos tem nomes para tudo. faz parte da natureza deles, classificar as coisas e pessoas de forma clara e inequívoca. fulano é um loser ou um overachiever ou um freak ou qualquer outra coisa que levaríamos linhas e linhas descrevendo. meu blog tem lurkers.
o lurker é aquele cara que só espia e não se revela. um pouco como o stalker, que é o que segue pessoas. mas no caso, são formas afetuosas de lurkers. volta e meia descubro que sim, meia dúzia de pessoas passam por aqui e lêem minhas elucubrações e saem sem dizer nada. dessa vez foi lu, que de porto alegre espia minhas atribulações, minha novela mexicana muda.
quando você traz um lurker para a luz, o que ele se torna?

segunda-feira, agosto 25, 2003

quando a realidade comprime e me expreme entre acontecimentos, o blog fica esparso. não me interessa de fato fazer uma lista de lavanderia aqui e os insights ficam raros. sou um animal contemplativo. deve ser por isso que voltei para o passado e para um cidade que ainda tem tempo, pátios, espaços. nos últimos dias, o trabalho tem me roubado essa paz. mas ela volta.

quinta-feira, agosto 21, 2003

Salvo desse abismo de depressão química pelo trabalho. Não aquela coisa evangélica, please. Mas de sentar e produzir. Em nenhum outro momento na terra me sinto tão no lugar certo, fazendo a coisa certa. Não há desconforto, inadequação, dúvidas, arestas. O mundo faz sentido. Até porque se está criando um novo. Do zero.

sexta-feira, agosto 15, 2003

so fucking sad that is really ridiculous.
lembro sempre de uma estória de um quadrinista espanhol, que narrava as desventuras dele com os quadrinhos e no final, em uma cena melancólica, enchia um quadrinho com os nomes dos autores amados todos e dizia porque habeis entrado em mi vida sin pedir permiso?
a realidade acelera, se fragmenta e se divide em pedacinhos menores que não necessariamente se entendem entre si, e giram, com um lado fosco e ou outro brilhante e vá o ser humano tentar fazer algum sentido disso tudo. sinto uma dificuldade enorme de conciliar aspectos vários de minha vida e os quadrinhos em particular são como uma maldição.

segunda-feira, agosto 11, 2003

e preciso agradecer ao nasi também pelo link do site do grant morrisson. mas ao mesmo tempo... esse pedaço de e-mail mandado a um amigo igualmente sofredor-quadrinista explica a situação melhor:

o site do grant morrisson. é sensaaacional, mas ao mesmo tempo me desespera. ver ele vivendo como um bólido pop rock'nroll arrogante e vivendo de quadrinhos...posso fingir que não, mas dio, tudo que queria era viver devotado aos quadrinhos. fico botando eles de lado para não sofrer, mas arranco os cabelos que não tenho. a velha estória de que a musa é ciumenta, não suporta ser deixada em segundo plano...segunda-feira e venho trabalhar e não tenho nada a ver com essa gente...queria estar em um bunker, ouvindo música altíssimo e fazendo a porra dos melhores quadrinhos da porra do mundo, se é que você me entende. e é claro que você me entende. what gonna takes to us to do it? rob a bank? starve to death? JUST PLAIN FUCKING BALLS ????
que medo. dudu nasi diz que sou talentoso quadrinista. como sou do tipo que esconde e se autosabota ao máximo...

mas vá lá, se algum incauto chegou aqui por conta do amigo dudu, tem a chance de ver se ele tem razão ou não. quase tudo cometido por mim está aqui.

de minha parte, a família agradece, penhorada.

quinta-feira, agosto 07, 2003

hipóteses:

- eu tenho leitores extremamente silenciosos.

- eu não tenho leitores.

- eles não acham que nada aqui mereça comentário.

estou torcendo pela hipótese 1.
as negociações sutis que acontecem por e-mail. well, elas acontecem também de serem sutis demais para algumas pessoas. aliás, nada é mais triste do que se esmerar para compor o e-mail perfeito e descobrir que passou por cima da cabeça da destinatária. para quem ama as palavras é sempre uma desilusão. num caso mais extremo, philiph roth conta da bela selvagem que aparece em sua vida e representa quase uma vingança dele contra o mundo, o garoto judeu infeliz enfim com uma deusa enorme ao seu lado - mas ela escreve bilhetes com erros brutais de ortografia. hmmm.

quarta-feira, agosto 06, 2003

o final de semana foi intenso em álcool e contato com essa raça desesperada, os seres humanos. festas bares ruas e casas. todas as instâncias. fiz bobagem, me encantei, me choquei com o estado da canalhice masculina, fui canalha, fui naive, dancei um pouco e bebi muito. a semana traz a experiência de um reencontro sóbrio. não foi tão mal.

segunda-feira, agosto 04, 2003

mas nada que um final de semana wild não resolva. detalhes em um futuro próximo, maybe.

quinta-feira, julho 31, 2003

o espírito quebrado por alguns dias. aquele negócio que pau e pedras podem quebrar mas palavras não...não é fato, friends. palavras sim.

quinta-feira, julho 17, 2003

a bela é elusiva, esguia e palida. provavelmente sorri, como escreve o autor de nero wolfe. nos olha da distancia, de seu mundo germanico, do alto dos seus tantos metros (sempre caio pelas altas) e nos mostra sem mostrar sua impossibilidade. sorrindo. possivelmente.

quarta-feira, julho 16, 2003

como nunca é tarde para ter herois novos, tenho um - nero wolfe. se ele ja estava na sua lista, você pode revirar os olhos e pular esse post, mas como disse, nunca é tarde.

nero é um gourmand, um glutao que se dedica a cerveja e a culinaria calorica, mas fina, digamos assim. ele ama suas orquideas, despreza quase todo mundo e nunca sai de casa. e ainda assim, ele resolve crimes. com a ajuda de um homem-das-ruas, seu funcionario pessoal, que faz todo o serviço pesado. mas o humor... os capitulos curtissimos... é impagavel, friends. e o melhor de tudo: sao setenta e sete livros. ahhhhhh. alegria para uma vida inteira.

segunda-feira, julho 14, 2003

post scriptum para a nota abaixo - sim, me faz mal pensar sobre essas coisas. que tem a atracao de um acidente na estrada, que captura nossos olhos e nossa morbidez. a vida na america com frequencia me faz pensar na existencia do mal, essa entidade abstrata, vagando por la, como uma criatura concreta e faminta.

claro que e um raciocinio perigoso, imaginar que nos somos os bons selvagens, etc e clamar pela vida natural, ou como-ela-devia-ser...mas, really. americans...
david bowie diagnosticou em uma musica: Im afraid of americans. E boy, ele tem razao. a maneira como pequenas insanidades crescem e sao cultivadas como feridas estimadas é, well, assustador. a ultima que cruzou meu campo de visao e um comportamento que aparentemente esta crescendo por la, que sao os wannabes amputees. sim, pessoas que por uma fantasia pessoal, sexual ou whathever, aspiram a ou conseguem de fato, ser amputados. perder uma perna ou um braco ou dois, para ser como eles sonharam. e medicos estao contentes em executar o procedimento. tudo pelo paciente. um documentario esta a caminho, um grupo de discussao tem mais de 3.000 wannabes inscritos...oh admiravel mundo novo. algo em mim treme lendo essas coisas.

sexta-feira, julho 11, 2003

para quem liga para essas, aham, banalidades, achei o lugar quieto para o almoço dos sonhos. o bistro da baronesa e o restaurante de uma dessas que foram, viram e voltaram, com seus diplomas e gostos da velha europa. o preco e muito honesto, a comida e discreta e reconfortante, o salao dos fumantes tem poltronas maravilhosas, um jazz toca no fundo... o ser humano volta ao mundo se sentindo melhor.

quinta-feira, julho 03, 2003

o eterno retorno
fui ver hulk ontem e nao e que o tema do filme (em minha mente distorcida, pelo menos) e o dominio feminino? pois que o gigante, a besta fera, o superego masculino que destroi, e vencido pela bella, pela cuidadosamente escolhida jennifer connely. ela, com sua beleza assexuada, de rosto que flutua sobre corpo nenhum, domina a besta com o poder ancestral feminino. ele literalmente cai a seus pes. ang lee sabe das coisas.

terça-feira, julho 01, 2003

abre o sol, meu som velhonovo enfim funciona, uma mitologia da cidade se desenha em minha mente (e no papel)...dia desses que tudo funciona. voce tem que prestar atencao e ser grato, you know. ah, e encontrei o vinil da trilha sonora de twin peaks. para ouvir com lagrimas nos olhos.

sexta-feira, junho 27, 2003

Lu se me ler vai entender, que nao lembrava a complexidade que e diagramar um jornal. a direcao de arte para revistas te deixa preguicoso, e a verdade. depois de uns dias em minha ilustre posicao de consultor do jornal, me passaram umas paginas coloridas para fazer e me pus a, tranquilo, quase olimpico e tomei um cacete fenomenal das pagininhas. dio. muitas colunas, muitas materias. renovou meu respeito pelos que batalham em jornais. brava luta.

quinta-feira, junho 26, 2003

deja vu no trabalho - de novo em uma redacao de jornal, de novo atraido por uma loira altissima. a vida se repete. mas dessa vez a loira e melhor. leia-se com um sorriso no rosto.
dois livros comprados no meu sebo favorito: manana digo basta, de silvina bullrich e herzog, do adoravel saul bellow.(me acostumei rapidamente a escrever sem acentos aqui,depois que ele sumiram. juro que me acostumo a tudo.)

os dois apontam para a desintegracao, tema perigoso pra mim, ja que me fascina um tanto. no argentino, uma mulher passa longas ferias em uma praia deserta no uruguai e vai se desprendendo de sua vida anterior. no de bellow, o protagonista esta de fato se desintegrando. cansado por demais de divorcios, problemas, cansado da vida. um sentimento que entendo. nao ocorre a voces que em algum momento voces se diriam - e isso, cansei, da muito trabalho se manter, se sustentar, procurar por sexo, pagar as contas, tomar banho?

a mim certamente ocorre e temo e tambem antecipo o momento. com frequencia olho meus objetos e eles me pesam tanto. o fardo de ter uma casa, livros, roupas, identidade. a mitologia franciscana me interessa quase nada (menos ainda andar descalzo) mas a ideia de nao ter nada...de se perder em um pais estranho onde nadie te conoce...
voces nao querem saber, mas a umidade (nada relativa) do ar nessa cidade varia, no inverno, entre 90 a 100 por cento. literalmente, folks, nao e uma figura de linguagem. se voces estao imaginando como e, well, e como andar sobre agua, respirar agua, dormir envolto em um lencol de agua. tudo apodrece. forget about the lovely cliches of gray weather.

segunda-feira, junho 23, 2003

tomb raider

Coisas do entusiasmo. Aventuras domésticas. Minha casa tem um porao que é como um mundo, camadas de vidas dos proprietarios anteriores, soterradas em po. Ja resgatei de tudo por la - ventilador, luminaria, mesa, o que se possa imaginar. E na quinta, buscando uma antena para a tv, em um entusiasmo juvenil de tomb raider, acertei minha cabeça com todo entusiasmo em uma viga perversamente baixa. cena classica: você olha sua mao e é so sangue. jorrando. Alvoroço entre os parentes, roupas manchadas de sangue e um passeio ao hospital. o cérebro continua funcionando,in case you´re wondering, so passei um dia enfaixado como um paja. Tudo isso por uma antena de tv. Piada familiar do momento e moral da estoria: sempre achei que tv fazia mal à cabeça.

quarta-feira, junho 18, 2003

A casa é invisivel, como pude esquecer de comentar isso. me gusta tanto. da rua não se vê nada. ela é longa e se estende suavemente por baixo de outra. uma casa secreta. ontem percorri longos corredores comprando gadgets e utensilios diversos. você precisa inventar uma casa, really.

segunda-feira, junho 16, 2003

mirando longamente o patio. juro que por meia hora foi so que fiz. houve um tempo em que o patio era a alma da casa, me dizia andrea. onde ficava o poço e os suprimentos. e um sapo.

basicamente livros espalhados pela casa, uma cama no quarto do andar de cima, um fogao deliciosamente velho, uma geladeira idem e é isso. so peças e mais peças de espaço. nao me canso de percorrer, de demarcar, de visualizar. ha um vao misterioso embaixo da escada, um porao abissal que é um mundo de objetos e dust, um elevador de comida desativado... a casa é cheia de sinais mudos, de coisas que nao aconteceram ou que deixaram de. o domingo foi passado assim, andando, vendo, considerando.

terça-feira, junho 10, 2003

Ha. Vitória dupla. Hoje ela me recebeu com "O que vai ser, amigão?" (sentiu o tom um-dos-caras?) e completou: "Um Holywood vermelho?" Yep. E no entanto chove torrencialmente em Pelotas. Nada é perfeito, uh. Digito com meus tênis molhados. Lamentável.

segunda-feira, junho 09, 2003

Ainda a anti-mona-lisa

Outra explicação: ela tem consciência de classe. Ou algo assim. Ela vê o mundo com um balcão no meio. Quem está do outro lado está do outro lado. Eu a vi com os rapazes do posto:rindo, fazendo piadas. Ela é one of the guys, you know? No momento que volta para o balcão, ela fecha a cara. Cortesia profissional, mínima. So, I´m the enemy.

sexta-feira, junho 06, 2003

Noticias de casa

E Oh finds a home. Uma casa no horizonte. Absurdamente grande, como podem ser as casas daqui. Tres quartos, patio, uma garagem estudio em que uno pode se perder...por metade do que pagava por um apartamento em Porto Alegre. Ele sorri a toa imaginando desenhos para a casa. Uma cesta de basquete no estudio? Um quarto so para os livros? Espaco para andar remoendo pelas noites. Ah, e nenhum vizinho, oh dio. Oh compra discos e arquiteta montar um daqueles sons antigos, com prato e caixas enormes. Os mates nesse patio prometem. A vida sorri.

segunda-feira, junho 02, 2003

A Anti-Mona-Lisa

Intrigado com a garota do posto. Um mês nessa cidade, três ou quatro vezes por semana estou lá comprando cigarros e não consigo nunca que ela me chame de outra coisa além de senhor. O mesmo olhar fechado de desconhecimento. Não consigo evoluir para um oi amigável. Não consigo que ela lembre qual é meu cigarro.

Ela tem aquele rosto vagamente masculino que me encanta, as maçãs do rosto proeminentes, aquele ar de quem está no mundo, sem dúvidas. E no entanto. É como se ela sofresse do mal do personagem de Amnésia - a cada dia sou um novo estranho querendo sabe-se lá o quê. Um sorriso parece um ideal inalcançável.

quinta-feira, maio 29, 2003

Yet another girl´s journal make the cut to the Blogger´s Top List. With some pictures, of course.How come all blogger girls are so cute? Somethings strange in that. They´re all so sharp and sensitive and special and overachievers and lived in so many places... call me suspicious, but somethings strikes me as odd in this deal. Maybe its a conspiracy. Some twisted mind created this image, of the perfect girlfriend and manufactures these fake diaries. Now, hey, that´s a project.

quarta-feira, maio 28, 2003

Nessa situação rara que é ser um adulto de volta à casa dos pais. Que se comportam como santos e no entanto. Ontem o frio desafiava o bom senso do peregrino em percorrer as ruas, mas me vi lo mismo andando pelas calles pelotenses. Ao fim me sentei em um bar repleto de estudantes e entusiasmos, que tomavam cerveja como se fosse verão em Copacabana. Eu tomei vinho e fumei até me sentir humano de novo e aquecido e voltar à casa.
Agora mesmo se aproximam as seis horas e as mãos já se põem duras demais para digitar. Coisas de viver nesse lugar.

terça-feira, maio 27, 2003

A ausência aumenta, amplia, estiliza. Quando ainda estava expatriado de Pelotas fiz uma estória em quadrinhos sobre o legendário Grande Hotel, templo de fantasmas e ambições literárias. Tinha algo como um slogan ou subtítulo: cada um tem a Paris que merece.
Me vêm isso à cabeça agora, lendo o relato de um encontro de amigos na verdadeira Europa, a que fica do lado de lá do oceano. Amigos em Barcelona encontram a amiga que estava em Londres. Bebem juntos e eu aqui. Como comentava com Loulou, a cigana espanhola, me sinto como Traveler, o personagem de Rayuela que achava seu nome uma piada cruel, porque nunca tinha saído dos pagos. Não que não ame minha Europa particular aqui, essa cidade que nasceu da carne seca e se reinventou como uma pequena Paris. Mas Loulou mesma me dizia que Paris... well...

sexta-feira, maio 16, 2003

satolep revisitada

de volta à cidade da névoa, dos doces sutis, dos nobres decadentes e de uma forma de bichogrilismo resistente ao tempo, que ronda pelas esquinas. quando você menos espera, algum amigo de dez anos atrás dobra a esquina e reaparece com a mesma cara (e roupa) de dez anos atrás. o que pode ser confortante e preocupante ao mesmo tempo.

mas os silêncios são outros, o céu é mais largo, os mates duram mais. os livros se deixam ler de outra forma, o branco da página não parece o mesmo, há como que uma função sharpen no mundo. você está em outro lugar, isso é claro. se come muita carne, o pão é inacreditável, se sai muito tarde e as ruas te confortam um tanto quando você volta para casa. não é pouco.

quinta-feira, dezembro 12, 2002

Comentando coisas no blog de Fê, articulei às cegas que a perversão nos define como humanos. Como criaturas que pôem sal nas coisas ou as assam em fogo baixo. Que não conseguem se satisfazer com o sexo procriativo dos animais. Obviamente trepamos com o cérebro. Precisamos cortar nossa carne em pedaços pequenos e convertê-la em outra coisa. Precisamos fazer de nosso parceiro uma imagem, uma invenção, uma outra coisa. Não conseguimos comer grama por milhares de anos a fio. Não conseguimos só viver. Precisamos de motivos, de objetivos, de fantasias... Alberto Caeiro achava que simplesmente pensar, ter idéias, já era um perversão em si. A ironia, claro, é que ele nunca existiu.

sexta-feira, julho 26, 2002

cozinhar pôe as coisas em perspectiva.
quando se está tentando acertar a dose exata de sal em um molho, o resto fica em seu lugar. e espera.
dia com um tempero especial, aliás. pungente. de longas cartas confessionais e insights sutis.

terça-feira, julho 09, 2002

Le café c´est fini.
Sorry. We ran out of coffee.
Lo siento, no tenemos más café.
Estamos sem café.

segunda-feira, julho 08, 2002

Mais velho e melhor

Robert Crumb, mostrando de novo o que o tempo faz com um artista talentoso que ama seu ofício: veja essa pequena pérola - a partir de uma música infantil. Uma lição de mestre.

domingo, julho 07, 2002

Sunday blues

O domingo me encontra querendo coisas que não sei o nome e me lança em uma expedição perdida – até o cinema para ver Star Wars, como se fosse possível resgatar o maravilhamento infanto-juvenil da primeira vez com sabres de luz e de um passeio pelo espaço. Um tanto piedosamente, não consigo ingresso. Ou melhor dizendo, desanimo vendo aquela fila obscena.
Mais sem rumo ainda, vago um tanto pela noite e substituo qualquer filme pelo conforto de comprar livros e comer. O Próximo Amor, de Ives Simon, me faz companhia junto com uma cerveja escura e algumas tapas. E levo para casa Vitor Assis Brasil tocando Jobim. Nem tudo está perdido.

quarta-feira, julho 03, 2002

Você sabe, não consigo parar de ouvir esse concerto da tori amos. horses é a nova favorita. para começar o dia de trabalho. café, cigarros e tori amos. hmm, life is good.

segunda-feira, julho 01, 2002

and then

Por uma questão de equilíbrio, um comentário quase oposto ao post abaixo surgiu a seguir. Por uma questão de ordem, foi colocado no quase abandonado still life.
a brave new world
Nem tudo é mau no admirável mundo novo. Você pode fazer como eu fazia ontem tarde da noite e ver-e-ouvir Tori Amos em um concerto maravilhosamente soturno e íntimo. Está aqui . Minha favorita é Hey Jupiter, em que ela erra a música, pára, fala com os técnicos (comenta que o jantar dela está esperando...). Que um documento assim não-polido esteja em um site de uma grande companhia, de graça, dá uma idéia pálida de um dos futuros possíveis da internet - um centro infinito de lazer, cultura, pesquisa, imersão... se a também infinita ganância não ficar no caminho, claro.


E é um mundo de links. No site de Jorge, uma referência ao site taperouge me levou a conhecer o destino de gaak, o robot rebelde, que empreendeu uma tentativa de fuga de um laboratório de pesquisas sobre inteligência artificial. Wow. Desnecessário dizer que essa notícia encheu minha mente nerd de maravilhamento e logo estava fuçando no curriculum do criador de gaak, Noel sharkly e meu cérebro fazia sinapses como louco.

Para quem tem pelo menos um mínimo de sangue nerd, trechos como esse são de tirar o sono:

"The robots can 'breed' or evolve by uploading their electronic genes to a remote computer. The Darwinian principle of survival of the fittest will apply as only robots which survive to maturity a given length of time - will be allowed to re-enter their 'genes' into the breeding pool.

Each robot has a set of artificial genes that are used to construct its neural network controller the brains of the machine. When two robots breed, each offspring receives half of the genes from one parent and half from the other (randomly selected) and there is a small amount of mutation."

wow.

quinta-feira, junho 27, 2002

Seja breve

Claudia Acuña. Cantora chilena de jazz. Gravando agora pela Verve. Ouvi o primeiro disco em uma loja. Quase comprei. Mas um rastro de dúvida me perseguia. Agora, ouvindo faixas do segundo disco no site da Verve, entendo melhor meu desconforto. Você pode vê-la aqui em uma pose infeliz de cigana de churrascaria. E ouvi-la.

Porque essa produção infeliz? Porque uma artista latina de jazz não pode se vestir decentemente, cantar sem essa insidiosa percussão com “sons da selva”, algum clone de Naná vasconcelo sacudindo pedrinhas no fundo? E mais aflitamente, porque essa vagueza nos vocais? Ecos de Flora Purim me vieram imediatamente. (Acho ela uma chata, devo dizer.) Badi Assad, uma violonista brasileira interessante, foi para os estados unidos e também virou mãe-natureza, com batas coloridas e vocais infelizes.


A indefinição em arte é um pecado mortal. Quando um grande artista é prolixo, é porque ele tem muito a dizer, mas quando é um artista menor, geralmente é porque ele está tateando pelas palavras. E derrubando copos no caminho.
Confesso alguma parcialidade aqui. Sempre fui fã da concisão. Poemas curtos e nunca odes. Borges chamava o romance de “ o monstro impuro” e cultivava uma anedota de que afinal, o ápice do romance, Ulisses, era ilegível. Não chego a tanto. Mas repetiria o sábio conselho do samba (Noel, acho): seja breve.

quarta-feira, junho 26, 2002



Coltrane, zen e a existência da alma

Romeu, o guerreiro zen, começou seu próprio blog, com propriedade, intenção e conteúdo. E um nome lamentável, haha, mas enfim. Um belo post sobre Coltrane já me animou bastante. Eu, vergonhosamente, não tenho o disco, Romeu. Estou sempre com um olho sobre ele nas lojas, mas é sempre uma pequena fortuna. E eu entendo seu comentário sobre precisar ser grande para ouvi-lo. Na terceira faixa desse ao vivo que comentei ali embaixo, ele vai tão longe que inevitavelmente você começa a se preocupar com os vizinhos, começa a se mexer na cadeira, fica inquieto. Um senso de aventura é necessário. Definitivamente not easy listening. Ainda que aquele Ballads dele você pode ouvir todo com um sorriso no rosto e mesmo minha vó poderia gostar. Enfim. Coltrane lives.

Eu também acho que há uma emoção particular do som dele. A maneira como ele começa as frases me toca quase sempre. Comprei Joshua Redman, que parece emular o mestre, mas há um vazio no som. Pode-se dizer que é uma coisa muscular. Ou talvez a tal da alma.

E para terminar o momento Coltrane, Jorge e eu comentávamos o outro dia, que cara maravilhosa ele tinha. Nenhuma conotação gay aqui, please. Não é nem exatamente beleza. Mas é uma cara que se olha com prazer, um rosto sólido, real.

segunda-feira, junho 24, 2002

Buffy vive

Um ataque súbito mas não inesperado à minha série-fetiche Buffy (você pode conferir na seção de comentários do post abaixo) me deixou elucubrando. Não faz sentido nenhum defender aqui um gosto pessoal, mas lembrei de um texto que escrevi outro dia sobre realismo mágico. Poderia se aplicar. Não a Buffy per se, mas a um conceito de porque alguns temas são razoáveis e outros não. Ou alguns são nobres e outros são escória pop. Seguem uns trechos, para não entediar ninguém:

Mágicos e escritores

Lendo esse maravilhoso conto de Ray Vukcevich, Whisper, um monte de links mentais me ocorreram.
O conto está hospedado em um gênero que se chamou de realismo mágico.
Só que instaurar o realismo mágico na literatura é um pouco como reclamar que tal coisa não podia ter acontecido em tal filme. Que não é realista que o personagem não tivesse morrido naquela queda ou que ele pudesse apanhar tanto. Não faz nenhum sentido pra mim. O cumprimento ou não das leis da física não torna um filme mais realista. É celulóide. Imagens, que não estão nem mesmo se movendo. Até o movimento é uma ilusão. Então, um carro na tela é tão real quanto uma nave espacial ou um trenó puxado por gansos. É tudo ilusão.
(...)

O que quero dizer com isso tudo? Que Emma Bovary é tão real ou irreal quanto Lestat, o vampiro ou Harry Potter. Se um personagem está desempregado e bebe muito ou se ele tem asas e voa, não se trata respectivamente de literatura e realismo mágico. É tudo literatura. E é tão real quanto você permita que seja.
(...)

Nomes são citados, teoria nenhuma parece se formar, o leitor desanima

Longa introdução, eu sei. Tudo isso porque gostei do conto de Ray e lembrei de tantos praticantes desse realismo mágico que acabei de dizer que não existe. Lembrei de alguns brasileiros: Murilo Rubião e José J. Veiga, principalmente. Campos de Carvalho, maravilhoso, está em uma categoria mais delirante. Ele não usa o velho truque desses mágicos de salão citados acima: criar um cenário convincente para de repente sacar um coelho. No mundo de Campos de Carvalho são coelhos dentro de coelhos dentro de coelhos dentro de uma ameixa, talvez. O que me soa mais honesto. Porque é um velho truque, realmente. Você vê isso em escritores bem mais antigos, como Poe. Eles ainda apelavam para o Isso é um Relato Verídico, que Recebi de um Amigo, etc. Supondo que quando mais sólida a mesa e a cartola, mais surpreendente o coelho seria.
Cortázar começou assim, como um golpista clássico, com esses truques estritos até alcançar um outro patamar, onde tudo estava no mesmo plano. 62, Modelo para Armar, pelo menos, funciona assim. Não há cortina, varinha, roupa de mágico. A mágica está em todo lugar ou em nenhum.


sexta-feira, junho 21, 2002

Uma ressaca tão sutil que é quase prazerosa. Como que uma instrução corporal para ficar em casa e não fazer muito. Meu computador, ecoando o comando, decide que não devo trabalhar. Não adiantou ter comprado um novo, reluzente, maravilhoso monitor plano de 17 polegadas. Meu computador, (que devia ter nome, de tão velho que é) resolve que hoje não é dia de trabalhar e fica preso em um loop de restarts. Ok. Nos conhecemos como em um casamento antigo. Então fico fumando e termino meu Nick Hornby. Not a bad way to spend the day. (Claro, essas teclas pressionadas gerando conteúdo aconteceram em um cybercafé. Precisava checar meus e-mails. Oferecimentos de Viagra herbal, Lose-10pounds-diet, HaveaBiggerPenis... esse tipo de coisa. Pop life.

quinta-feira, junho 20, 2002

E agora você pode, por fim, criticar a qualidade do café servido aqui.


Porto Alegre abre um sol esquecido pelos dias e eu, cavaleiro da arca perdida, vou caçar imagens em sebos. Sempre uma operação que convida ao fracasso, mas é mais um pretexto para respirar pó do que qualquer outra coisa. As imagens procuradas não estão em lugar nenhum, mas um Machado de Assis muito rico sim, assim como um belo dicionário antigo ilustrado e um livro completamente incompreensível, visto em detalhe acima, cujo conteúdo em alemão me escapa de todo, mas não suas imagens - fotos e pinturas reunidas sem nenhum critério que eu possa conceber, mas enfim, não se pode ter tudo.

terça-feira, junho 18, 2002

An english gentleman

Finalmente Gaiman responde a pergunta que eu vinha postando na sua página de FAQ´s . Não, ele não se importa com o fato de Harry Potter ser o mesmo garoto que ele criou anos atrás no Books of Magic. Muito elegante da parte dele, convenhamos.

segunda-feira, junho 17, 2002



O mundo se pôe pequeno de formas que percebemos (mal) aos poucos. Chegam bilhetes de Cadiz. Com a internet onisciente sob minha mão, em frente dos meus olhos, procuro o que se come em cadiz; quem odeiam, onde bebem e vejo fotos de azeitonas, aceitunas rellenas de anchoas, que se parecem tanto, tanto com as que estão na lata em minha mão.

Só que aqui estão em latas, dentro de um apartamento. Lá estão brilhando sobre um prato e sob um céu perto do mar.

quarta-feira, junho 12, 2002

Ouvindo Coltrane

this man could blow

É uma experiência maravilhosa se tornar íntimo de um disco de jazz. É um trabalho de aproximação: você não consegue apreender tudo na primeira visita. Você tem aqui três ou quatro ou muitos artistas trabalhando juntos para pintar algo. Cada um tem algo a dizer. Ocasionalmente em uma visita você fica tentado a ouvir mais um deles do que os outros. E o sentido está por todo parte. O artista com o nome na capa não detém a primazia nas declarações. Em um momento o baixista pode abrir uma clareira no meio do som que lhe conforta muito mais do que tudo. Uma batida mais vigorosa nos pratos, uma hesitação no solo, algum silêncio. Há um mundo de decisões aqui.

segunda-feira, junho 10, 2002

Meu computador tem idéias próprias a respeito de cores. Bem, meu monitor, na verdade. Possivelmente cansado de anos de abuso, ele acorda agora cada dia de uma cor, sendo a mais frequente um amarelo esverdeado que, eu confesso me deixa levemente nauseado. Como se espera que eu faça direção de arte nessas condições? Well, digamos que com muita imaginação e espiando ocasionalmente em minha tabela de cores. Ah, a vida glamourosa do diretor de arte.

sexta-feira, junho 07, 2002

Humor inglês para dias de chuva

E que tal esse comentário de Neil Gaiman em seu sempre interessante diário?

"Was bitten on the cheek by a spider. Do not appear to be able to climb walls or have any kind of extrasensory abilities yet. So far I've just got a spider bite on my cheek. Seems deeply unfair, really. "
Smoking in the rain

David Gray é minha sugestão de trilha para esse inverno, definitivamente. Ele me acompanhou hoje durante todo o dia e uma miríade de táxis e pular sobre poças e fumar sob marquises olhando para o céu desabando. Com uma voz que soa a uísque, ele gravou o disco quase sozinho em casa. São violões, um piano ocasional e alguns eletrônicos esparsos criando uma textura cinzenta sobre a qual ele desfia seus contos. / crazy skies all wild above me now winter howling at my face and everything I hold so dear disappeared without a trace/ I' ve been talking drunken gibberish falling in and our of bars trying to find some explanation here/ sail away with me honey/ sail away/...

terça-feira, junho 04, 2002

Full Circle



Robert Crumb, quem diria, me diz que preciso ser grato. Justo ele, com aquela persona eu-me-odeio, com a qual tanto me identifico. Pois em uma estória que li hoje, ele dizia Sou Grato, Sou Grato! Eram três ou quatro pagininhas, onde ele mostrava que, no final das contas, no fim do dia, ele era grato por não ter que levantar cedo no outro dia, poder trabalhar em casa, com algo que ele gostava e tal...

A mensagem não podia ser mais oportuna pra mim. Depois de uma breve aventura em um emprego como ilustrador comercial, estou voltando a trabalhar em casa e, acredite, sou grato por não ter que levantar e ir para o mundo lá fora. Só fazer um café e sentar no computador. Ou na mesa e desenhar, melhor ainda.




Gosto de marcar essas mudanças. Demarcar uma zona, dizer esse momento acabou, vamos para o próximo. Então juntei uns CDs’novos e livros velhos e fui andar um pouco por minha cidade natal, a velha Pelotas.
Foi bom, andei muito; comi, bebi e fumei demais com minha família, tirei muitas fotos de casas velhas, (como essa) e na volta, gastei as últimas fotos do filme com meus amigos Fê e Jorge, com quem almocei hoje. Você pode ver as caras sorridentes deles aqui, aqui e ainda um detalhe que saquei da cena, um desses fragmentos que estão ali piscando pra nós. Ou até mesmo, considerando meu momento condescendente, minha cara feia com árvores ao fundo.



Para encerrar os movimentos ritualísticos, minha faxineira passou o dia transformando de novo em uma casa a ruína absurda que meu apartamento tinha se tornado. E chegando lá, encontro além de uma casa limpa, um envelope de Londres, da lovely Melissa, contendo o novíssimo Nick Hornby e um impresso de um conto de Bukowski com ilustrações de quem, senão Crumb.


Então, o dia e o ciclo se encerram e sim, sou grato a meus amigos. E vou começar amanhã minha vida nova, cheio de projetos na prancheta e no monitor, sorrindo. Gracias por todo, chicos y chicas. You are great.

quarta-feira, maio 29, 2002

Ainda os livros

O dia cinzento em Porto Alegre (como é bom, dio, estar trabalhando de novo em casa) pede um cortazar, convida a uma xícara de café, implora por uma taça de vinho no final do dia e por música durante tudo isso. Então aqui você encontra uma perolazinha do mestre.

Fê também está celebrando Julio (ou me provocando com aquele livro que nunca encontrei para comprar) e você pode ler os comentários dela aqui.

E breve devo estrear mais um site, com o nome bastante autoexplicativo de sobrelivros. Aparentemente eu tenho uma disposição infinita para atividades não-lucrativas.

segunda-feira, maio 27, 2002

Livros são objetos de desejo, dificilmente substituídos pela internet enquanto ela permanecer tão intangível, nervosa e frágil. Lembrei disso hoje, vendo essa capa maravilhosa. O que acontece aqui? Uma gestalt, eu diria. Não é a só a bela pintura nem o nome intrigante, mas a soma das duas coisas com as possibilidades presentes no livro. Você vê a capa, lê o título e imagina o livro. Às vezes, claro, nosso livro imaginado é melhor do que o real, mas isso é uma contingência. Sorrindo pra você da vitrine, ele faz promessas que nem sempre são cumpridas.

Em todo o caso, parece um belo livro e um autor interessante, que capaz de manter um clima de realismo mágico sem azedar a mistura. Mais sobre ele aqui.

sexta-feira, maio 24, 2002



Jazzman
Lendo Bird Lives, uma maravilhosa biografia de Charlie Parker. Se você viu Kansas City, de Robert Altman, você viu a cena: o jovem Charlie, com seus 14 anos escondido em um dos bares onde se tocava jazz, para poder ver seus ídolos. A cada noite, quando sua mãe ia fazer faxinas noturnas, ele ia perambular pelos clubes. Jogado para fora de novo e de novo pelos seguranças, ele achava sempre uma maneira de se infiltrar pelos fundos e ficar em um canto, admirando por horas a música de Webster Brown, Lester Young ou Count Basie.


Difícil imaginar que para um desses garotos que estudam jazz na Berkeley, o jazz possa ter o mesmo significado. Aliás, o jazz está em uma encruzilhada e faz tempo. É uma música que parecia depender de uma certa mística e os sucessores musculares do gênero, como Winton Marsalis, que parece estar fazendo musculação com o trompete, francamente não tem muito o que dizer. Você vê John Pizarrelli ou a bela Diana Krall, e, por mais agradáveis que eles sejam de se ouvir (e são), eles estão fazendo entretenimento.


Devem, precisam haver novos caminhos. Ano passado tive o prazer de ver Joshua Redman ao vivo e ele me parece tentar articular coisas novas. Mas o assunto é longo e o post já se alongou demais. Volto ao assunto.

quinta-feira, maio 23, 2002

Fachada do Lounge Desse lado do balcão

Ok. Tomei uma atitude. Você já pode dar sua opinião sobre a qualidade do café que toma aqui. E sobre qualquer coisa, claro. Depois do café, vá para o Lounge. O lugar ainda precisa de uma reforma, mas você já pode fazer seu próprio drink por lá.
A fronteira do gosto
Meu bom amigo (e ex-professor/inspirador) José Flores deve saber bastante sobre isso. Um artigo sensacional conta como um professor de literatura orgulhosamente apresenta um clássico pessoal favorito para os alunos:On the road, do Kerouac. Os alunos odiaram. O professor comenta o choque e o que ele aprendeu com isso. Lembro muito de Zé e outros professores tentando mostrar Kandinsky ou algo assim para alunas que preferiam estar vendo a novela das 6. Dias duros, meu caro. Eu sofria parelho com ele. Mas não deixa de ser interessante pensar em sobre como damos como certo a superioridade de nossos gostos.

O artigo está aqui. E para os que não lêem na língua de Shakespeare, eu juro que fico chateado de passar tantos links em inglês, mas A) São coisas que encontro e B) A internet em português, sinto muito, mas ainda é precária.

Talvez esteja mais do que na hora de fazermos algo a respeito disso.

(Bueno, já estamos aqui digitando isso, mas talvez devamos fazer mais. Estou pensando a respeito. Todos devíamos. E logo devo instalar um sistema de comentários aqui para meus quatro leitores me ajudarem a pensar nisso.)
Mel´s song.
Se P.J. Harvey estivesse com writer´s block e precisasse de idéias, não precisaria ir muito longe: melissa continua escrevendo as coisas mais tristes do mundo. E em inglês. Como esse último post que está lá, sobre fumar o último cigarro e não conseguir dormir mais. Praticamente posso ouvir P.J.Harvey cantando isso. Ou então, Jorge, quem sabe enfim fazemos nossa própria banda depressiva, que só se apresentará em dias cinzentos e noites chuvosas. Que tal?

quarta-feira, maio 22, 2002

Pra que servem os amigos?
Não foi combinado, mas meus três amigos com blogs, , Jorge e Melissa, deram uma notinha para a inauguração do meu modesto estúdio. Gracias, caros. Em cada um dos casos foi uma alegria boba ver meu nome lá e comentários simpáticos.

terça-feira, maio 21, 2002

Livros de areia

Nosso Homer ilustrado, o criador de SuburbanLimbo, falava o outro dia de algo que ele queria que inventassem: um leitor de blogs, onde você pudesse reunir todos os blogs que lhe interessam e ir somando outros a cada momento. Pode-se fazer um portal, claro, mas ele imaginava algo mais prático. Entendo o ponto de vista dele. Cada dia descubro dois ou três que queria continuar lendo. Não se pode ler todos, por supuesto. Uma vida inteira não seria o suficiente, estamos no campo do incontável aqui, do Livro de Areia de Borges.

Ainda Borges: há algo de Aleph nisso: o ponto de onde se pode ver tudo. A visão totalizante e esmagadora da totalidade. Curioso ver essas teorias se realizando na web. Como a de Cortazar, citada abaixo. Outra cortazariana: a Cidade. Um lugar com que vários amigos sonham. Uma cidade, com canais, pontes e ruas que amigos visitam em sonhos. Ocasionalmente se vêem de relance, se perguntam no outro dia: você não estava lá? Também foi cumprida de uma forma, com os mundos virtuais da web, com portais onde se incorporam personas, com as comunidades online. Tudo isso é muito lindo e ocasionalmente aflitivo.

São tantos, tantos, tantos. De uma certa forma, lhe dá esperança na raça humana. No número de pessoas inteligentes que existem. Acabei de abrir um blog italiano, life,love,regret, onde ele deu um novo significado a s&m: smart and miserable. Desnecessário dizer que adorei isso.

Belo design e idéias vagas de uma garota inglesa:dissolved girl.

Adventures in dating cumpre a promessa do nome. Uma jovem profissional de NY, beirando o desespero, apela para uma agência de encontros. E conta tudo, com uma sinceridade impressionante.

And so on and on and on.

segunda-feira, maio 20, 2002

A perfeita tarde gris
Almoçando com a almodovariana Lu, falávamos de Cortazar e Rayuela e de como o livro antecipava os links da web. Buscando mais tarde trechos para mandar como um regalito para a bela, achei essa pérola: o Rayuela-o-matic, um leitor web do livro. O projeto é um primor. Cortazarianos de longa data, como eu, mas proativos, resolveram tomar nas mãos a idéia de pôr o livro online, com a beleza de cada leitor se responsabilizar por um capítulo. É um primor de experimento patafísico, uma justa homenagem e uma chance para quem ainda não leu o mestre. Para uma tarde cinza como hoje, é a leitura perfeita.

domingo, maio 19, 2002


Sem grande pompa nem circunstância, declaro aberto meu estúdio online. Um work in progress que aos poucos deve pôr no ar meus quadrinhos, tiras, projetos e quetais. No momento dá pra ver três ou quatro desenhos e é isso. Mas se você disser que achou lindo, quem sabe eu me animo e continuo. Vá lá.

sexta-feira, maio 17, 2002

A primeira carteira de cigarros
Sim, estou fumando, amigos. Devo ser oficialmente o mais velho novo-fumante do mundo. Não tinha nem experimentado fumar até os 34. Um comentário de um amigo sobre como eu seria o típico fumante me deixou pensando. E, próximo do final da primeira carteira, confirmo: sim, faz sentido pra mim. Percebi que acompanha meus hábitos: emoldura minhas audições de jazz nos phones tarde da noite, minhas madrugadas na internet, pra não falar da satisfação absurda que causa depois do café que vem depois de um almoço feliz. O entusiasmo típico dos recém-convertido a qualquer coisa. Aguardem loas à fumaça. Zanuzzi, entendi seu exílio no corredor.

quinta-feira, maio 16, 2002



Não, eu não tenho nenhum discurso estético-sociológico para justificar Gisele Bundchen aqui, fora eu ser absolutamente louco por ela. Posando de bela da tarde. Catherine Deneuve revista e ampliada. Beautiful. O ensaio completo você pode ver aqui.


segunda-feira, maio 13, 2002

Sobre mediocridade gastronômica e o significado disso na vida em geral. Encontrado no suburbanlimbo. Vá até lá se você quiser ver a foto do casal, ou ler os outros posts bacanas dele. Mas ele acertou particularmente nesse.


" All through dinner, I starred at this couple sitting behind Jake. Older. My guess is from the Midwest (they sounded that way). Barely spoke to each other. The reason for my fascination was the woman. We're eating in a fairly fancy place (a $75 bucks head is not unheard of) and she's drinking a tall glass of Orange Soda.

Maybe there's a fine reason. Maybe she owns the company and only drinks orange soda. Or maybe she a former drunk and that's how she stays sober. Maybe. But here's what I think. I think she's been drinking orange soda since she was 10 years old. She orders it everywhere and drinks it with everything. And that made me sad. It made me sad because that woman and her husband look like good, solid American citizens. Republicans, Fox news viewers, Bush supporters. The kind of folks who vote, who demand tax breaks for their dairy business but hate welfare, the kind who support any bill with the word America in the title. In short, the kind of Ma & Pa, average Americans who run this country. And yet, with all that power, she is so sheltered that she drinks the same Orange Soda she's been drinking since the age of ten. It doesn't seem right.

Look, they don't need to be wine snobs, but I'd like some little bit of proof of a sophistication worthy of their age. Proof that they've learned something since their teen years. Do we really want to be led by people who haven't changed their drinking habits in 50 years? I don't. It almost makes me envy the French. "

sexta-feira, maio 10, 2002

Bananas & peanuts


Americanos são overachievers. Gente que faz. Já falei isso aqui e de uma maneira negativa, mas o que não posso deixar de admirar é como eles pegam um minúsculo projeto e dão corpo a ele, criam uma estrutura, transformam em um modo de vida, em um ganha-pão e sabe-se lá o que mais. Nada é pequeno demais para ser levado a sério nem nada é grande demais que os assuste.

Veja o caso de Andrea Scher (acima) e seu Superhero design. Ela faz colares de contas coloridas. Descrito assim parece uma atividade inócua, quase-hippie e convenhamos, não muito interessante. Mas vá no site dela pra ver o que ela fez disso. Polaroids de amigas usando os colares; gente interessante, engraçada, cores absurdas, links para os projetos pessoais dela (ela é uma pintora muito honesta), enfim, todo um conceito em cima de, veja você, colares de contas. A idéia é tão simples e a realização do projeto é totalmente despretensiosa, mas meu ponto é - aqui no Brasil qualquer amigo seu tem idéias mais interessantes 3 vezes ao dia, mas quem realiza?

Fim do sermão. Vá ver.

quinta-feira, maio 09, 2002



Cowboy Junkies pela manhã. Dois clicks no discman e estou em um mundo diferente, longe das intrigas e mesquinharias do trabalho. Você quase pode ver a manhã enevoada de onde eles cantam. Os amplos espaços, uma certa falta de perspectivas e aquela tristeza inefável na voz de Margo Timmins. Por algum motivo, isso me faz feliz.

terça-feira, maio 07, 2002

O fracasso de Baco

Almoçando no shopping, comendo aquela comida hedionda que eles tem para oferecer, me ocorre que ali seria o cenário perfeito para o purgatório.

As almas vagariam ali sem vínculos, sem crédito, incapazes de conseguir satisfação e comendo aquela comida horrível.

Mais ou menos como já acontece.


Não, eu não estou escrevendo poesia, como insidiosamente sugeriu Jorge.

Poesia pra mim é a área de onde todos os amadores deviam se afastar, para evitar danos maiores à sociedade.

O que você vê no post abaixo é uma letra do disco de Anne Sofie Von Otter e Elvis Costello, que não posso recomendar o suficiente. Para dias bons e maus.

domingo, maio 05, 2002

Its april after all

It's really coming down

It's raining cats and hounds

It's falling on parades
and on the plans we made

But there'll be other days

when things will turn our way
and rain will start to fall

it's april after all

segunda-feira, abril 29, 2002



Delícias suburbanas: no final de um dia frio, sob uma chuva fina, encontrar no caminho de casa em um mercado suspeito, uma quantidade razoável de garrafas de Miolo esperando quietinhas na prateleira, sob uma etiqueta muito razoável de preço.

Em casa, do lado de uma taça, ouvir Norah Jones, a nova delícia folky-jazz, com sua voz de Carole King jovem, direto do site da Blue Note. Às vezes, a vida não é tão complicada.


E minha sugestão é que você vá lá e ouça também. Norah Jones.

Depois de passar a manhã imerso em html, sair pra almoçar lembra matrix. Você olha para o mundo com uma certa estranheza, desconhecendo as dimensões de espaço e secretamente torcendo para que o mundo podesse ser organizado como código.

Não é. E depois de um almoço pouco inspirado, alguma linha de instrução em java ou flash faz cair uma chuvinha fina.

sexta-feira, abril 26, 2002



Sou uma antena e fico louco na lua cheia. Isso parece poema de quinta, mas são só os fatos. Fico andando pela casa, torço as mãos e olho para as paredes. Ou saio de casa e bebo muito, mas há sempre o dia seguinte. De toda maneira, não há solução. Posso me torturar e pôr Cassandra Wilson cantando Harvest Moon ou me fingir indiferente e assistir tv, mas dá na mesma. É uma angústia indissolúvel, um desejo de que a vida seja subitamente mais interessante que esse caldinho ralo pra doente, essa sopinha de hospital. Deitado, fico olhando o teto infinitamente. Na rua, fico andando como um homeless desorientado. Ouço tambores lá fora.

quinta-feira, abril 25, 2002

Caterina, que não podia ser mais fina do que é, está na França e conta sobre as manifestações anti LePen. Para leitores em inglês, vale dar uma olhada.

domingo, abril 21, 2002



é domingo, mas serei breve

É domingo, e sempre se está um nível acima. Ou abaixo. Pra mim é sempre assim. Ou estou na lama, vendo seis horas de televisão até a total numbness ou estou naquele mundo rarefeito das idéias, abraçado com um livro, ouvindo uma ninfa cantar, como agora Anne Sofie Von Otter, com essa voz que não é da terra. Hoje é um desses dias rarefeitos, thank god, o ar frio entrando pela janela, o mate ao lado, vários livros velhos novos me cercando, pousados no braço do sofá. Eles me dão conforto só com a presença deles. Às vezes são semanas até que eu abra algum e um visitante ocasional poderia pensar que é alguma forma de esnobismo cultural, mas é conforto puro. É a idéia dos livros, o amor aos objetos que eles são, que Caetano cantava.

E esse post nasceu de uma carta para José Flores, que fez sentido pra mim alguns instantes depois de ter sumido da minha tela, então fico com a impressão de que havia algo significativo que esqueci de reescrever, mas agora está borrado como nos sonhos. Que seja. É domingo, after all.

quarta-feira, abril 17, 2002


Eu estou apaixonado por um livro, um livro ordinário que ninguém ouviu falar e que eu comprei em uma oferta, em um estado pra lá de lastimável. Chama-se The Moviegoer e eu estou arrasado que ele vá acabar. Tenho prolongado essa agonia tanto quanto possível, mas como dizem os profetas do apocalipse, o fim está próximo.
Esse é sempre um momento traumático para os leitores. Você vai ser expulso de um mundo familiar, que você aprendeu a amar. Claro, você sempre pode reler, mas há uma sensação de trapaça. E as cenas se repetem. Não sei se como farsa, como na ilustre frase, mas sem o mesmo brilho. Não, a primeira leitura é tragicamente irrecuperável.
O livro é cuidadosamente não-estrelado por Binx, o moviegoer do título, alguém que falseia tanto quanto possível para não viver de verdade. Ele engana. Ele tem um trabalho aquém das suas possibilidades intelectuais, tem affairs com as secretárias e quando a vida ameaça se manifestar, vai ao cinema. É o suficiente para que a vida, de fato, não aconteça. Quem não consegue se enganar é Kate,uma meia-prima de Binx, que vê através de todos esses esquemas e, amparada por uma herança razoável, escapou do trabalho, do casamento e de tudo que pudesse distraí-la. Tragicamente, eles não conseguem gostar o suficiente um do outro para que algo aconteça. Cada um fareja o farsante no outro. Então eles falam sem se falar e se entendem em silêncios e em alusões obscuras, pequenos jogos mentais sem humor que não servem de consolo. Kate está mais próxima do abismo. Binx assiste e preferia não assistir. Entre uma secretária e outra ele chega a pensar em casar-se com ela, com uma salvação patética para os dois.
Patético é esse resumo, mas é o tipo de livro que não pode ser resumido. Eu antecipo que não há solução possível para o enredo, também, e que eles vão simplesmente me abandonar, me deixando com minha própria vida para cuidar. Então eu leio meio capítulo, em um momento cuidadosamente selecionado e lamento mais um pouco.

A vida secreta dos garçons
Um garçom atinge a perfeição quando encontra o equilíbrio entre a invisibilidade e a presença e quando você não consegue imaginá-lo em outro lugar.
Acredito que encontrei o garçom perfeito. Ele trabalha no bistrô do Margs. Sutil, simpático sem ser excessivo, conhece o cardápio e tem piadas milimétricas com os clientes. Consegue te trazer aquele conforto de ser reconhecido, lembra de qual foi a última sobremesa que você experimentou e eu não conseguia, de maneira nenhuma, imaginá-lo fora dali. E o almoço foi impecável como sempre. Um minúsculo expresso com chantilly (dois, na verdade) selou/selaram o momento. Voltei pra rua curado de meu mau-humor e deslizando entre os pedestres. Viva a Slow Food.

quinta-feira, abril 11, 2002



O fim do mundo
Acordar com uma sensação apocalíptica que custa a se desfazer. Por algum motivo qualquer, um filme que narra o último dia na terra vem à minha mente ainda na cama. O que você faria, como pergunta o infame Paulinho Moska, se esse fosse enfim o último dia?
No filme em questão (esqueci o nome - O último dia?) a população sabe a data exata do fim e reage de maneiras diferentes. Há famílias fingindo que é natal, casais tentando achar um conforto final no sexo, alguma convulsão social pelas ruas... gosto de um personagem que tem grandes dilemas escolhendo a música que vai tocar no momento exato. Ele escolhe um Bethoveen, se não me engano.
E quando saí para a rua, atrasado e sonolento, o dia tinha uma dessas iluminações ambíguas, quando o céu branco é atravessado tanto por nunvens cinzentas quanto por raios de sol saídos do nada. Na parada, um ônibus abre suas portas exatamente à minha frente, mostrando um interior desolado e vazio. Embora minha mente saiba que não é o fim, a impressão não se dissipa. São 10:30 e ainda sinto como se o mundo fosse acabar.


(A foto de fim de mundo veio do www.in-public.com e é de Trent Parke)

quarta-feira, abril 10, 2002



Há um relato de que Sartre preferia a companhia de uma mulher bonita à dos seus amigos intelectuais, a qualquer dia. (E a santa Simone que se virasse).
Não chego a tanto, mas me deixa mais tranquilo em dizer que sim, sou afetado pela beleza. Como presença, digamos. Não que eu saiba lidar com ela. Na verdade, fico profundamente paralisado. Difícil entender o que significa a beleza, de fato. Ela gera um estranhamento, uma distorção da percepção, por assim dizer.
O que é uma forma complicada de dizer que fiquei meio tonto ontem conhecendo uma bela.

domingo, abril 07, 2002

Mais um longo texto sobre o nada.
(Eu culpo os domingos por isso. Ou excesso de café. Ou os dois.
Acredite, você tem minha compreensão se não ler.
Tente na terça, deve estar melhor. Segunda eu vejo muita tv e fico melhor.)



Domingo pode ser como o começo de Perto do Coração Selvagem, onde Joana tenta agarrar o ar entre ela e os móveis, olha para as paredes e se desespera e pergunta – Pai, do que eu brinco agora?
O dia pode se esticar pra sempre, se você deixar. Simplesmente olhar pra fora da janela, e ver uma parede branca como eu vejo e se espantar que o momento não passe.


(Se existe algum título mais bonito do que Perto do Coração Selvagem não lembro agora.)


Voltando ao que eu dizia outro dia: me sinto dentro de uma enorme pausa. Nem música, por semanas.
A criação, quando acontece, traz a ilusão de algo acontecendo em sua vida. O tipo de sensação que outros extraem de relacionamentos, empregos, preocupações. Ninguém está pronto para enfrentar o vazio total, a falta de significado, a inexistência de um caminho. Talvez o mestre zen esteja, mas ele morreu no japão faz tempo. Hoje as pessoas se ocupam com o zen como se ocupariam com marcenaria ou com a bebida.
Mas o do que fugimos, em última instância? Da ausência mesmo de significado? Do que o zen chama de void, o vazio infinito? Alguns capítulos de um livro sobre zen: “Sitting quietly, doing nothing” “Empty and marvellous”. Podemos chegar lá? É possível, para um ocidental contemporâneo, criado no tempo da mtv?


Uma conclusão parcial é: há níveis de tolerância para o vazio. Algumas pessoas entram em pânico se tiverem uma noite livre. Outras só começam a se afligir depois de semanas. Talvez, talvez, alguém na terra consiga viver sem planos. Ou ocupações. Viver, só.
Não se trata, efetivamente, de sentar-se em frente a um riacho por toda a vida, caso você esteja me lendo muito literalmente. Mas de não fazer coisas por medo do monstro debaixo da cama, o Vazio. De que nossas atividades não sejam como uma fogueira pra espantar animais selvagens.


Como consolo, se você acha que fracassei completamente, uma das velhas máximas do zen:

Aqueles que sabem, não falam.
Aqueles que falam, não sabem.


Então...

quinta-feira, abril 04, 2002

O que todo criador sabe é que quando você está criando - quero dizer realmente dedicando todas suas horas livres a um projeto - você não precisa se perguntar porquê. A vida faz sentido naturalmente, o sentido é a criação. O tipo de certeza que os pais tem, eu suponho. Criar um filho dá tanto trabalho que não dá pra pensar no sentido da vida.
Abri um espaço, um recreio da criação. Me pergunto se é longo demais. Umas duas semanas que tenho as noites livres de novo. Chego em casa e mesmo minha casa parece perguntar E daí. Cresce o desejo de novo de acalentar um projeto, de ter um tema correndo por sob a superfície. O tipo de momento que você percebe que não cria para os outros, cria para que sua vida se sinta justificada. Ou para viver em um mundo mais interessante, diferente desse descrito abaixo.
Acredite, os motivos de um criador são profundamente egoístas.
O hábito de ligar a tv pela manhã e ouvir os telejornais enquanto tomo café e me arrumo. Parece saudável, mas ando duvidando. Tenho achado mais difícil ir para o mundo depois de ouvir sobre assassinato de menina em escola, revolta de presos, guerra no oriente médio, sequestro... Cada vez que vejo alguém com um bebê então, fico pensando de onde sai a coragem de pôr uma criança no mundo. Nesse mundo.
Nós brasileiros, em particular, acho que vamos para um círculo especial no céu ou no inferno, por termos transformado o paraíso que recebemos nessa terra de ninguém. Mas pode ser meu humor que anda alterado. Júpiter em conjunção com saturno, sei lá.

quarta-feira, abril 03, 2002

E já que estou em um momento promocional, vou convidar meus três leitores para ir até o tvjunkie, meu outro site, onde descrevo, lamento e elaboro sobre meus hábitos televisivos. Acabei de postar ali sobre o final do Big Brother, em um tom O-Fim-Está-Próximo.

terça-feira, abril 02, 2002

Não há dois blogs iguais. Enquanto o meu, nos seus piores momentos, pode parecer frio e pretensioso, o de Melissa consegue manter uma urgência e um humor ácido constante. Vale a pena ler o relato-quase folhetim da falta de luz dela. O blog como relato minuto a minuto de uma situação, intermediado pelo grlll humour. Enquanto isso, o de tem a objetividade jornalística que não nega a profissão e o de Jorge, bom, é a cara do Jorge. E está cada vez mais colorido e escandalosamente bem realizado. Que é porque estamos (eu e Jorge) tramando um mini-portal que una essas identidades tão diversas. Soon.

segunda-feira, abril 01, 2002

Não consigo superar meu fascínio com as rádios da internet. Trabalho nesse momento ouvindo a Rádio Cave, que toca só os velhos mestres do blues. Gente com nomes como Old Blind Ernie ou coisas assim. Alguns tem o som chiado de uma eletrola do passado. E saem das caixas do meu computador. Há um paradoxo maravilhoso aqui. Sem falar no aspecto puramente prático. Nos últimos dias já trabalhei ouvindo rádios de música celta, africana... o que você imaginar. Duas favoritas: Wumb FM, que toca só folk e LiquidSoul, que toca todo esse soul moderno -Maxwell, Eryka Badu... A fonte do tesouro é no Live365, uma central de rádios que é como as bibliotecas de Borges. Ou o Livro de Areia dele. Mundos, universos de música. Se perca.