segunda-feira, maio 15, 2006

meus posts vêm prontos de fábrica e são como o proverbial novelo: uma vez que vejo o fio, é só puxar. às vezes, eu só fico na dúvida qual deles é o certo. esse por exemplo, veio com três fios, então, no espírito experimental, vou mostrar os três, enquanto ainda lembro:

1) de vem quando levanto meio bêbado nessa mesa de café e resolvo defender stephen king de novo. não que ele precise de defesa. mas hoje é um desses dias.

oh boy, dizem os frequentadores.


2) se algum dia eu resolver dar conta de como passei as horas da minha vida, muitas delas nos últimos anos foram passadas dentro de um livro de stephen king.


3) como todo mundo, faço leituras que são melhor acompanhadas com aquela cara de marília gabriela: mão no queixo, olhar de inteligência. são as coisas que você quer ser pego lendo. geralmente dão trabalho. às vezes compensam, às vezes não. mas como todo mundo, tenho leituras que são, felizmente, de prazer puro. stephen king está no topo dessa lista.


ok, de qualquer um dos fios, o novelo é esse:


acredito que algum dia, ele ainda vai ganhar senão uma revisão crítica, pelo menos um olhar mais amoroso e menos viciado. como um grande escritor popular de nosso século. nesse sentido, acho que me beneficiei por ler no original. talvez eu tivesse vergonha de lê-lo em português, talvez não tivesse começado. mas posso praticamente dizer que aprendi inglês com ele. o primeiro livro inteiro que li em inglês foi dele. different seasons. lembro da primeira linha: I´m the guy who can get it. e a piada é que I couldn´t get it. eu não conseguia entender a maldita primeira linha. muitos kings depois, o navio flui tranquilo e lê-lo é como estar de férias. ele é um amigo ao qual se volta sempre e tem sempre histórias novas para contar. porque é isso que é ele é: uma máquina incrível de contar histórias. às vezes ele perde a mão, sim, (geralmente são livros da fase alcóolatra: ele confessa não lembrar de ter escrito alguns desses) às vezes ele exagera na extravagância da trama, mas no geral ele está naquela linha americana clássica de texto limpo, sem maneirismos, com um ouvido incrível para a língua e uma capacidade de dar cor a tudo: seus personagens nunca são genéricos, nunca são os mesmos. o que aliás.


o que aliás, me deixa possesso quando vejo alguém embasbacado com o código da vinci. quando vi gugu liberato andando por aí com o livro embaixo do braço e dizendo que era "fascinante" vi logo que boa coisa não era.
isso daria todo um outro post, mas basicamente a questão é: dan brown não poderia engraxar os sapatos de king. enquanto king é um escritor autêntico, honesto e de uma voz que consegue permanecer sempre fresca, brown é um artesão dos mais ordinários. alguém que leu a cartilha dos bestsellers e a seguiu à risca, pelo mínimo denominador comum: os capítulos são curtíssimos, acabam sempre num suspense de o-que-vai-acontecer-agora, os personagens são lindos, brilhantes e totalmente genéricos e o livro basicamente é uma gincana ensandecida, uma corrida sem fim nem sentido pela próxima pista.
o que acontece: obviamente o livro é ridiculamente fácil de ler (até o gugu liberato conseguiu) mas, ahã: tem um verniz. fala de cultura! da vinci! uau. isso deve ser bom. me sinto uma pessoa culta! tenho assunto para conversas!
e esse foi o gênio do cafajeste: vender um fusca velho com pintura de ferrari. coisa que king, com sua ética do interior jamais se permitiria. tentar ganhar respeito na marra com um golpe baixo desses.

em vez disso, ele continua seu trabalho: falar de pessoas comuns mas nunca genéricas (o livro bag of bones abre com essa citação que é um credo dele: perto do ser humano mais desinteressante do mundo, toda a literatura não é mais do que um saco de ossos) e dos gêneros que ele ama, embora não recebam nenhum respeito: o terror, o suspense e todos seus subgêneros. e ele vêm abrindo seu espectro cada vez mais: nos últimos anos tivemos um livro sobre a escrita (On Writing) um livro sobre os anos 60 (hearts ins atlantis) e mesmo um gênero que nunca achei que ia tolerar, mas com ele se tornou possível: a saga fantástica. the dark tower é toda uma mitologia que ele criou, ainda que (felizmente) tenha vínculos com o mundo como o conhecemos. mas como não sou king e esse post já está de um tamanho obsceno, fica pra outra hora. para o próximo capítulo. longa vida para the king. amen.

Nenhum comentário: